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National Gallery of Art – O grande templo das artes de Washington, DC.

As colunas jônicas, o frontão do pórtico e a cúpula já anunciam uma linguagem arquitetônica que nos remete a um templo romano do período imperial. Entretanto, no lugar de Júpiter, Mercúrio e Diana, os deuses do panteão romano, encontramos Da Vinci, Rafael e Monet, os deuses da história da arte. Assim é a National Gallery of Art de Washington, o grande templo das artes implantado em uma das laterais do Mall Nacional, no centro da capital americana.

Para conhecer todo o complexo da National Gallery of Art o visitante precisa, antes de mais nada, de tempo. As centenas de peças que fazem parte do acervo estão expostas em três espaços diferentes alinhados na Madison Drive: o West Building, o East Building e o Jardim das Esculturas.

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Tanto a construção do prédio principal (West Buiding), quanto a criação da coleção de arte nele inserida, são atribuídas ao espírito empreendedor de Andrew Mellon, um dos maiores mecenas da história dos Estados Unidos. Proveniente de uma tradicional família de banqueiros de Pittsburgh, em 1882 assumiu o banco que havia herdado de sua família e transformou o já próspero negócio familiar em um império econômico que se estendeu pelo rentável mercado do carvão, do aço e do petróleo. Após ter se tornado um dos homens mais ricos da América, Mellon se transferiu para Washington em 1921 para servir ao governo americano como secretário do Tesouro, cargo que ocupou por três gestões seguidas.

Nos anos 1930, Mellon adquiriu algumas peças do Museu Hermitage e começou a construir o que seria, no futuro, uma das mais importantes coleções de arte do mundo. Em 1937 fez a maior doação que um único indivíduo havia feito até então para o governo americano. Foram 125 peças de sua coleção particular de arte ocidental, incluindo trabalhos de Ticiano, Rembrandt, El Greco e Botticelli. Além das magníficas obras de arte, Andrew Mellon financiou a construção de um museu para abrigá-las, além de ter feito uma significativa doação em dinheiro para a criação de um conselho de curadores que seria responsável pela aquisição de novas peças e pela curadoria das exposições.

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Vista do interior da rotunda do West Building.
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Um dos jardins laterais que interligam as salas.

Para projetar o prédio do museu, Mellon escolheu John Russell Pope, um dos mais requisitados arquitetos da primeira metade do século XX. Pope estudou na renomada École des Beaux Arts de Paris, que tinha como princípio básico o uso da linguagem clássica da arquitetura. O resultado foi um prédio cujo corpo central lembra o Pantheon em Roma, um templo consagrado a todos os deuses romanos, provavelmente construído durante o governo do imperador Adriano, no século II d.C. O prédio, cuja centralidade é marcada pelo grande volume da rotunda, tem duas áreas laterais equipadas com jardins de inverno, como se fossem pequenos oásis de descanso e que funcionam como elementos de ligação entre as diversas alas da galeria.

Ao caminhar pelos corredores e salas da National Gallery of Art percebemos como seria difícil discurssar sobre um acervo tão grandioso. Mesmo assim, algumas obras se destacam, quer pela sua raridade e/ou representatividade para a história da arte, quer pelo seu significado específico para, por exemplo, nós brasileiros. Neste sentido, é impossível passar pela ala de pintura flamenga do século XVII e não se emocionar com Paisagem de Pernambuco, do pintor holandês Frans Post.

Post havia chegado na então Capitania de Pernambuco, em 1637, como integrante da comitiva do conde Maurício de Nassau, governador nomeado das possessões holandesas na América Portuguesa, pela super poderosa Companhia das Índias Ocidentais. Ao lado de seu conterrâneo Albert Eckhout, Post atravessou o Atlântico com a missão de registrar e documentar a paisagem brasileira e a vida cotidiana local que, até então, eram feitas por artistas e artesãos europeus que, baseados em relatos e crônicas de viajantes, estavam criando um imaginário equivocado do Novo Mundo.

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Frans Post: Paisagem de Pernambuco. Óleo sobre painel. Década de 1660.

Nobre letrado e amante das artes, Maurício de Nassau conseguiu, por meio do trabalho de sua comitiva, composta por artistas e naturalistas, criar pela primeira vez um documento de certa credibilidade sobre o meio ambiente das exóticas terras de Além-Mar. A tela em questão foi feita após o artista ter retornado à Europa, à partir dos registros feitos em um caderno de esboços durante sua estadia no Brasil. Por esta razão, existe certa polêmica envolvendo as obras de Post. Estas telas pintadas na Holanda, após o seu retorno, revelariam uma percepção precisa daquilo que foi visto e vivenciado no Brasil ou seriam o resultado de um olhar filtrado especialmente para agradar uma clientela exigente e ávida por novidades? Seriam telas que tinham como objetivo revelar um exotismo exacerbado das terras de Além-Mar, tão bem aceitas nos Gabinetes de Curiosidades da elite holandesa? Suas telas teriam sido criadas como um contraponto entre a natureza quase selvagem dos Domínios Ultramarinos e a sociedade dita civilizada do Velho Mundo? Estes questionamentos seriam apenas pequenas sutilezas que tornam as obras de arte tão encantadoras e sedutoras.

Além de Paisagem de Pernambuco, que para nós brasileiros se reveste de especial importância, a National Gallery of Art oferece aos visitantes obras surpreendentes como o Retrato de Ginevra di Benci, a única obra de Leonardo Da Vinci em exposição nas Américas.

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Leonardo Da Vinci: Ginevra de Benci. Óleo sobre painel, c. 1474.
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Fra Angelico: Adoração dos magos. Têmpera sobre painel, c. 1440.
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Botticelli: Madona. Têmpera sobre painel, c. 1470. 

Na década de 1970, a Galeria ganhou um segundo prédio, o East Building, que abrigaria o crescente acervo de arte moderna e contemporânea e tornaria a National Gallery of Art uma das mais importantes instituições artísticas do mundo. A obra foi encomendada por Paul Mellon, filho de Andrew Mellon, fato que confirmaria a vocação mecênica da família. O projeto do novo edifício foi entregue ao renomado arquiteto sino-americano I.M. Pei que, anos mais tarde iria projetar, a pedido de François Mitterrand, a Pirâmide do Louvre. O terreno reservado ao East Building, além de ter uma complicada forma trapezoidal, faria com que o novo edifício tivesse uma visibilidade incrível já que o terreno ocupava toda a quadra conformada pela Avenida Pennsylvania, Rua 4 e Madison Drive.

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O East Building, projetado por I.M Pei na década de 1970.
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Vista do interior do East Building com o móbile de Alexander Calder.

Sempre muito ligado às formas geométricas puras, Pei utilizou o triângulo como base projetual. O resultado foi um construção de rara beleza, indicado em 1987 pelo American Institute of Architects como um dos dez melhores edifícios dos Estados Unidos. O grande átrio, coberto por clarabóias de vidro de forma triangular, ganhou obras dos mais renomados artistas americanos, algumas executadas especialmente para ocupar aquele espaço. A que mais se destaca é o gigantesco móbili de quase 500 kg, criado por Alexander Calder que parece flutuar sobre a cabeça dos visitantes.

Os dois prédios da National Gallery of Art são interligados por uma passagem subterrânea que lembra os filmes de ficção científica. O grande corredor, servido por esteiras rolantes está envolto em uma malha de lâmpadas de LED que cria efeitos surpreendentes e torna a passagem de um edifício ao outro em uma experiência única.

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Túnel de LED que faz a ligação entre os dois prédios.

Durante a construção do East Building, a National Gallery of Art ganharia seu terceiro espaço de exposições, o Jardim das Esculturas que, ao contrário dos outros dois prédios da galeria, seria um espaço ao ar livre. Localizado na outra extremidade do West Building, o Jardim das Esculturas permite que o visitante percorra caminhos sinuosos, ao redor de uma grande fonte, ao longo dos quais as grandiosas obras foram instaladas.

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Roy Lichtenstein: House I. Alumínio pintado, c. 1996.
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Hector Guimard: Entrada do metrô de Paris, c. 1900.

Impossível não se surpreender com a Transforming House do artista pop Roy Lichtenstein, ou mesmo com as incomparáveis entradas do metrô de Paris de Hector Guimard, expressão máxima do Art Nouveau francês. Ao visitarmos qualquer dos espaços da National Gallery of Art temos a certeza de que estamos diante de uma das mais significativas coleções de arte do mundo.

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